Uma exposição é uma revelação.
É expormos aos outros aquilo que revelamos e que muita vez esta escondido em nós.
Deve ser por isso que imagino dificil esta mostra: a partilha do que se vê, como se pensa, e como se sente algum substantivo ou tempo do verbo no abecedário pessoal de cada um.
Ontem fui á primeira exposição de fotografia do meu amigo Quica. E gostei.
Gostei das palavras que á entrada enquadravam em total coerencia as imagens nas paredes.
Gostei das imagens a viverem sozinhas porque cada uma conta um momento grande e talvez irrepetivel.
Gostei dos titulos que dão legenda e corpo a cada imagem.
Gostei do Quica calmo e sereno, sem mais nem menos.
Obrigada Quica por te dares assim a nós que somos um bocadinho teus também.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Jardim da Estrela tem Estrela
OJardim da Estrela tem alma.
Tem um bocado de mim desde que me sei existir e até antes disso.
Quando nasci o meus pais foram viver para a Rua de S. Bernardo num prédio mesmo á frente de um dos portões do Jardim.
Ai passeei e brinquei em pequenina nas varias versões que a idade faculta e ensaia. Tenho fotografias que comprovam bem esses momentos...
O meu Pai muito vanguardista desde sempre, já ia correr para o jardim todos os dias, na altura, e estamos a falar de 1966,achavam as pessoas que por lá passavam, que ele era maluco...
Depois a vida deu voltas e interrompi o jardim no meu precurso.
Hoje em dia em Lisboa os jardins estão na moda. Passaram a ser locais de culto, onde as coisas acontecem e se vivem em pleno. São concertos no coreto, são eventos de marcas e lançamentos, são projecções de filmes durante o mes de Setembro na noites boas, são quiosques e cafes e baloiços e escorregas, e picnics, e mantas na relva prantadas ao Sol. E as pessoas vão e estão e vivem o jardim. Dá gosto.
Muitas vezes vou passar tempo ao jardim com o Duarte. Levo revistas e ele uma bola. Fazemos disso um programa e voltamos para casa contentes.
Hoje em dia o jardim é também para mim um lugar de desporto. Todas as manhas gozo o previlégio de sair de casa a pé equipada e lá vou andar depressa em voltas continuas ao jardim para me fazer bem á saúde e aos musculos, á energia ao astral.
A fauna matinal do jardim é gloriosa, as pessoass passeiam bébés em carrinhos, outras passeiam os cães, um casal de chineses namora timidamente, os putos do liceu Pedro Nunes abancam no chão na palheta a curtir um furo, os repuxos de rega são incansáveis na sua missão e cheira a terra molhada, as arvores respiram, e eu corro e páro e contemplo. E gosto e sinto-me bem. Com vida.
Tem um bocado de mim desde que me sei existir e até antes disso.
Quando nasci o meus pais foram viver para a Rua de S. Bernardo num prédio mesmo á frente de um dos portões do Jardim.
Ai passeei e brinquei em pequenina nas varias versões que a idade faculta e ensaia. Tenho fotografias que comprovam bem esses momentos...
O meu Pai muito vanguardista desde sempre, já ia correr para o jardim todos os dias, na altura, e estamos a falar de 1966,achavam as pessoas que por lá passavam, que ele era maluco...
Depois a vida deu voltas e interrompi o jardim no meu precurso.
Hoje em dia em Lisboa os jardins estão na moda. Passaram a ser locais de culto, onde as coisas acontecem e se vivem em pleno. São concertos no coreto, são eventos de marcas e lançamentos, são projecções de filmes durante o mes de Setembro na noites boas, são quiosques e cafes e baloiços e escorregas, e picnics, e mantas na relva prantadas ao Sol. E as pessoas vão e estão e vivem o jardim. Dá gosto.
Muitas vezes vou passar tempo ao jardim com o Duarte. Levo revistas e ele uma bola. Fazemos disso um programa e voltamos para casa contentes.
Hoje em dia o jardim é também para mim um lugar de desporto. Todas as manhas gozo o previlégio de sair de casa a pé equipada e lá vou andar depressa em voltas continuas ao jardim para me fazer bem á saúde e aos musculos, á energia ao astral.
A fauna matinal do jardim é gloriosa, as pessoass passeiam bébés em carrinhos, outras passeiam os cães, um casal de chineses namora timidamente, os putos do liceu Pedro Nunes abancam no chão na palheta a curtir um furo, os repuxos de rega são incansáveis na sua missão e cheira a terra molhada, as arvores respiram, e eu corro e páro e contemplo. E gosto e sinto-me bem. Com vida.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Natureza invencivel nos codigos.
Compromisso isso isso
Compromisso.
É mesmo isso. É querer (porque se acredita de livre vontade no assunto) estar agarrado a isso.
Comprometer ao contrario dum peso que pesa, é ser-se livre. Eu escolho que sim, ou eu escolho que não. Mas comprometo-me com a minha vontade.
Quem não se compromete não é livre. Quem não se compromete tem medo do que isso possa trazer em prole das expectativas.
O calendário dos dias e das projecções faz-se por uma questão de agulha com as suas vantagens. Se eu projecto um plano para uma data, posso começar a gozar desse plano com antecedencia.
Comprometo-me a querer isso visto de longe. Mesmo que depois da hora chegar tudo isso possa mudar.
Mas não é isso mesmo a vida? A capacidade de aceitar o imprevisto e de lhe dar a volta com razões pessoais ou pontuais?
Comprometer é escolher. Escolher é querer mais uma coisa do que outra. Sem medo.
Compromisso não tem enguiço, pelo menos para mim.
É mesmo isso. É querer (porque se acredita de livre vontade no assunto) estar agarrado a isso.
Comprometer ao contrario dum peso que pesa, é ser-se livre. Eu escolho que sim, ou eu escolho que não. Mas comprometo-me com a minha vontade.
Quem não se compromete não é livre. Quem não se compromete tem medo do que isso possa trazer em prole das expectativas.
O calendário dos dias e das projecções faz-se por uma questão de agulha com as suas vantagens. Se eu projecto um plano para uma data, posso começar a gozar desse plano com antecedencia.
Comprometo-me a querer isso visto de longe. Mesmo que depois da hora chegar tudo isso possa mudar.
Mas não é isso mesmo a vida? A capacidade de aceitar o imprevisto e de lhe dar a volta com razões pessoais ou pontuais?
Comprometer é escolher. Escolher é querer mais uma coisa do que outra. Sem medo.
Compromisso não tem enguiço, pelo menos para mim.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Drogaria 1
Coisas que nem por isso melhoram, mesmo que mudem.
O meu bairro é um bairro antigo de Lisboa.
A condizer com isso preserva ainda algumas lojinhas que me lembro desde que de me lembro de mim.
A drogaria do Sr. Fernando era um icon da Rua da Lapa.
Chão de azulejos, balcão em madeira com desenhos arte nova, estrutura de prateleiras bem desenhadas com gavetas em baixo que guardavam mistérios.
A vida do Sr. Fernado foi esta drogaria, sempre sempre igual de bata branca e oculos, era um homem muito digno, serio e trabalhador que fidelizava clientes, que arranjava sempre forma de tudo encontrar consoante as necessidades e caprichos dos seus clientes.
Vendia ganchos, elastico e bandeletes, sonasol, fio de cisal, agua rás, e pedra pomes, vassouras e detergentes, tintas e cera da abelha..
Um dia contava com 90 e muitos anos fechou a porta e deixou em mim a memória e o exemplo de uma vida entregue.
Durante muitos meses ao passar na fachada encarnada com portas de ferro da drogaria, perguntava-me o que iria acontecer áquele lugar. Num sábado de manhã deparo-me com a loja aberta. A drogaria da minha vida estava transformada numa merceearia manhosa dum chinês. Fiquei em choque, entrei revi a matéria e tudo tinha sido transformado: o chão, os armários, as gavetas misteriosas, os produtos, o balcão... tudo se tinha eclipsado. Tudo estava transformado numa outra coisa muito diferente e em nada melhor.
O mundo está diferente.
O mundo virou uma aldeia global como dizem no anuncio.
O mundo virou uma aldeia global como dizem no anuncio.
Tem vantagens claro que sim, mas não vale tudo.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Escuta, AmorQuando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.
José Luís Peixoto, in 'Abraço'
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.
José Luís Peixoto, in 'Abraço'
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